quarta-feira, novembro 18, 2009

para ti, que nunca me lês!

Ao terminar a leitura, abaixou o rosto e disse: feddhetetlen, ou seja, irrepreensível. Disse a palavra com um tremor na voz, e percebi que seus olhos marejavam. Percebi que Kriska tornara a me querer bem. E provavelmente imaginava que eu lhe viraria as costas, tão logo desvendasse o idioma húngaro por completo. Então cobri sua mão com a minha e lhe disse: serei para sempre teu discípulo humilde e grato. Ainda com uma lágrima a lhe descer na face, ela sorriu e disse: fala mais, por Deus. E eu: as melhores palavras que sei emanaram de ti, devem a ti seu vigor e sua beleza. E ela: só mais uma vez, suplico-te. E eu: será somente teu o meu verbo, dedicar-te-ei meus dias e minhas noites. Foi quando Kriska disse que era muito engraçado o meu sotaque.

Chico Buarque in Budapeste

1 comentário:

nely disse...

Já li esse livro, muito bom.

Abraços.