quinta-feira, maio 09, 2013

o movimento está prestes a chegar

Aline Frazão nasceu e cresceu em Luanda, Angola. A jovem cantora e compositora angolana lançou em Dezembro de 2011 o debut "Clave Bantu", uma edição independente de 11 temas originais, entre eles duas colaborações com os escritores angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. "Movimento" é o segundo trabalho discográfico de Aline Frazão, a ser lançado em maio de 2013 (Ponto Zurca/Coast to Coast). Além das suas composições, conta com uma parceria inédita com o poeta e letrista angolano Carlos Ferreira "Cassé" e ainda com um poema de Alda Lara musicado por Aline, que também assinou a produção musical do álbum. Na banda que a acompanha estão Marco Pombinho (piano e rhodes), Francesco Valente (baixo e contrabaixo) e Marcos Alves (bateria e percussão). Neste disco participam também os músicos cabo-verdianos Miroca Paris (percussão) e Vaiss Dias (cavaquinho e guitarra).


MOVIMENTO - segundo álbum da angolana Aline Frazão sai dia 20 de maio pela Ponto Zurca.


MOVIMENTO - segundo álbum da angolana Aline Frazão sai dia 20 de maio pela Ponto Zurca. Uma das músicas inéditas do disco é uma parceria entre Carlos Ferreira "Cassé" e Aline.


MOVIMENTO - segundo álbum da angolana Aline Frazão sai dia 20 de maio pela Ponto Zurca. Uma conversa com (da esquerda para a direita): Massalo, César da Silveira, Claudia Guerra, Hindhyra Mateta, Jorge Cohen, Aline Frazão e Cabuenha.

quarta-feira, abril 17, 2013

quarta-feira, abril 10, 2013

um convite aos de cá

um convite aos de cá

[Dentro do Segredo]

No quarto, com tempo para pensar, parecia-me às vezes que também eu estava assim, fechado duas vezes. Fechado naquele país que não me deixava ter telemóvel, que não me deixava receber emails e fechado no meu segredo. 

Havia aquelas pessoas à minha volta, que me olhavam de lado quando tirava notas nos meus blocos, que me perguntavam porque tirava notas, que me perguntavam repetidamente, como se estivessem sempre a confirmar: sabe que não pode escrever sobre esta viagem. 

E havia as outras pessoas, lá longe, a milhares de quilómetros, a passearam de carro nas estradas onde eu costumava a passear também, a terem o número do meu telemóvel na sua lista, a terem o meu endereço email e, talvez, a lembrarem-se de mim às vezes. Alguns a ligarem-me e a encontrarem sempre o telemóvel desligado, a escreverem-me emails e a minha resposta a não chegar. 

No passado, porque tinha sido preciso escrever romances ou vivê-los, já tinha desligado o telemóvel por períodos mais ou menos longos. Ainda assim, nessas alturas, eu sabia em que gaveta ele estava e, a meio da noite, quando me apetecia, podia ligá-lo e ouvir as mensagens desesperadas de vozes a viverem o pequeno drama dos prazos e dos pedidos múltiplos que tinham para me fazer. No email, era exactamente a mesma coisa. Pedidos, pedidos, a maioria dos quais acrescidos de chantagem emocional mais ou menos velada. 

Com essa experiência, tive um pouco a ideia do que é morrer. 

Na primeira semana, está toda gente em pânico. Há os textos que têm de ser entregues, os convites que precisam de uma resposta urgente. Urgente, urgente. Na primeira semana, é tudo urgente. A ansiedade sufoca até as palavras escritas por email, sente-se. 

Na segunda semana, sem resposta, sem sinal de vida, uma parte grande dessas pessoas deixa de ligar ou escrever. Aqueles que ainda insistem, deixam mensagens no telemóvel sem terem a certeza de que vão ser ouvidas. Então, têm a consciência de que podem estar a falar sozinhos. Falam muito mais pausadamente do que antes, desanimados, fazem pausas, como se tentassem ouvir o próprio eco. 

Na terceira semana, quase ninguém tenta ligar. Passam-se dias sem uma única mensagem. Ao abrir o email, só publicidade. A urgência acabou, começa apenas a passar o tempo. 

Na Coreia do Norte, experimentava outro tipo de morte. 

Ali, era eu que estava desligado e guardado numa gaveta. Aquela era uma morte sem notícias do que deixava para trás. Não sabia quem me tentava ligar, nem que mensagens me deixava. 

Não sabia que emails havia para responder. Ali, era apenas o corte, apenas a escuridão. 

Os telefonemas que fazia aos meus filhos eram demasiado rápidos. A voz deles era demasiado distante e coberta por ruído estático. O momento em que estávamos a falar passava tão depressa que, depois, quase parecia não ter acontecido. Momento fugaz, memória vaga. 

Os telefonemas que fiz à minha irmã e à minha mãe não contrariavam este sentimento. 

Está tudo bem por aí? 

Esta pergunta era demasiado complexa para responder nos minutos contados de um telefonema. 

Eu, em Pyongyang , na Coreia do Norte, e a minha a mãe a perguntar: 
Está tudo bem por aí? 

Considero-me prático e funcional. Respondi sempre pelo lado do senso comum. Dizer que estava tudo bem era a minha maneira de dizer que não estava doente, que não tinha sido preso e que contava regressar a casa como combinado. Mas, claro, essa não era a resposta completa a uma pergunta tão vasta. 

Além disso, as respostas que elas me davam também não eram satisfatórias. Não apenas pelo desencontro das palavras, não apenas por ser muito difícil darem-me com duas ou três frases as imagens que me falavam, mas por uma razão muito mais directa: eu sabia que, se tivesse acontecido alguma coisa má, alguma coisa mesmo má, daquelas que não têm apelo, tanto a minha mãe como a minha irmã não me iriam dizer. Estando eu na Coreia do Norte, sem possibilidade de fazer nada, não me iriam causar sofrimento desnecessário. 

Sabendo isto, ao falar com elas, eu tentava avaliar-lhes o tom de voz, o ânimo. Essa interpretação era bastante subjectiva e nem sempre me descansava. Até porque, como eu, também elas guardavam segredo. 

Quando a minha irmã estava no corredor, a falar comigo ao telefone, as filhas passavam por ela e não podia dar a entender a preocupação que sentia. O mesmo acontecia com a minha mãe, que ia ao supermercado, ao correio, que cumprimentava as pessoas na rua da nossa terra, sabendo que eu estava na Coreia do Norte. 

Eu estava no desconhecido. 

Guardamos os segredos ao lado de tudo o que não dizemos. Nesse grande sótão escuro há de tudo, há aquilo que não dizemos porque temos medo, porque temos vergonha, porque não somos capazes; há aquilo que não dizemos porque desconhecemos, ignoramos mesmo, apesar de estar lá, em nós. Os segredos não são assim. Eles estão lá, podemos visitá-los, assistir a eles, sabemos as palavras exactas para dizê-los e, muitas vezes, temos tanta vontade de contá-los. Mas escolhemos não o fazer. 

Os segredos estão dentro de nós. como tudo o que sabemos, também os segredos nos constituem. Também os segredos são aquilo que somos. Quando os seguramos, quando somos mais fortes e os contemos, alastram-se em nós. Desde dentro, chegam à nossa pele. Depois, avançam até sermos capazes de os distinguir à nossa volta. E, no silêncio, somos capazes de os reconhecer. Então, nesse momento, já não são apenas os segredos que estão dentro de nós, somos também nós que estamos dentro dos segredos.

José Luís Peixoto

quarta-feira, março 20, 2013

um convite aos de cá

Francisco José Viegas

O finlandês Mika Waltari (1908-1979) é o autor de O Egípcio, um romance histórico situado no Antigo Egipto (escrito em 1945, foi publicado em Portugal no final na década de 60 pela Bertrand); nele se conta a vida de Sinouhe, medico e espião de faraó Akhenaton. O seu pai, «médico dos pobres», acreditava que as palavras tinham virtudes terapêuticas e, em certas doenças, só elas poderiam obter resultados; numa ocasião, escreveu algumas frases num papiro que depois misturou com vinho num almofariz e deu a ingerir a um paciente – que se curou. Ao longa da historia da leitura, o episódio pode ser evocado sem dificuldades; o «poder curativo da literatura» não deve ser exagerado nem menosprezado. Se não aponta – longe disso – o caminho para felicidade, insinua a sua provável existência. 

Há 25 anos, tratando de um livro inteiramente diferente, Um Mês no Campo, de J. L. Carr (Gradiva) – e adaptado ao cinema por Pat O´Connor, com Colin Firth e Keneth Brannagh, sob o título Longe da Guerra –, propus que certos livros deviam ser vendidos nas farmácias, como se alguns pudessem ser indicados para insónia e outros (por exemplo) para a falta de apetite ou certos estados depressivos, havendo autores ou obras que necessitariam de prescrição médica adequada. 

Em Inglaterra, o Serviço Nacional de Saúde acaba de criar o programa «Books on Prescription», em colaboração com o Arts Council, a Reading Agency e a associação britânica de bibliotecários. A partir de maio, os médicos podem passar uma receita sui generis aos pacientes na área de saúde mental: uma ida à biblioteca da sua área para ler uma seleçao de 30 livros que podem ajudar a tratar «problemas de relacionamento», «distúrbios ao sono», «certos tipos de fobia social», «stresse», «compulsão alimentar» ou «bulimia nervosa», de acordo com uma classificação entretanto estabelecida pela associação de médicos de família do Reino Unido (que também recomenda a participação em comunidades de leitura). Textualmente: «Existe evidencia clínica que demonstra que os livros podem ser tão eficazes como outras formas de terapia – com vantagem de não produzirem efeitos secundários.» A lista, que deve ser disponibilizada nas bibliotecas publicas, incluindo títulos de «autoajuda» mas passa pelos diários de Bridget Jones, de Helen Fielding, ou por títulos de Bill Bryson (Crónicas de Uma Pequena Ilha), Nancy Mitford (Amor Num Clima Frio) e Harper Lee (Mataram a Cotovia). 

O tema garante, pelo menos, discussão – tanto quando a designação «os livros», que pode abranger quase tudo, inclusive coisas que, felizmente, nunca leremos. Mas essa discussão é gratificante e, no fim de contas, «saudável». Que efeitos poder ter a leitura de Anna Karenina ou de O Vermelho e o Negro? Em que pode a leitura de Álvaro Campos ou de Rimboud ajudar-nos a ultrapassar estados depressivos? Quais as consequências da leitura de Borges, Cormac McCarthy, Carver ou J.D. Salinger? Existe um padrão para enquadrar esses efeitos e consequências – e quem assume a responsabilidade por eventuais «distúrbios» causados pela leitura? 

Na melhor das hipóteses regressamos a uma das frases que encerra Rizhome, de Gilles Deleuze e Félix Guattari: num livro há nada a compreender e muito para nos servir. Para que tudo isto tenha sentido, é também necessário alargar o conceito de «medicina preventiva», ou seja, proteger o livro e a leitura até onde for possível e mesmo para lá dessa fronteira. A ideia de «cura pela bibliografia» é tão feliz que não se pode perder a oportunidade de levar os leitores a identificarem os livros que, em circunstâncias determinadas, podiam ter sido comprados numa farmácia – com prescrição médica ou ao seu arrepio, experimentando uma droga tolerada.

quinta-feira, março 14, 2013

um convite aos de cá


"CÁ ENTRE NÓS" 
Lançamento do livro do fotógrafo José Silva Pinto
Horário: 19h
Onde: Executive Samba Hotel, R. da Samba, S/N - Luanda