segunda-feira, outubro 05, 2009

geração rejeitada

na banda, o movimento hip hop também já foi classificado... os rejeitados de um lado e os porreiros do outro.
no show do Kool Klever, Conjunto Ngonguenha, MCK e outros, estava representada a ala dos rejeitados. rejeitados pelas editoras, rejeitados pelas rádios, rejeitados pelo sistema, rejeitados pelas elites, rejeitados pelo consumismo em massa e constantemente rejeitados pelos cotas que insistem em não respeitar a diferença.

para alguém como eu que sempre teve um olhar de estranheza para esse estilo musical, estar naquele ambiente por vezes tornou-se desconfortável... as roupas, as expressões ou o clima em si do espectáculo, pouco se aproximam do ambiente que me assenta e foi por ai que senti as revindicações da ala dos rejeitados. embora apresentam comportamentos diferentes das massas, existe nesse lado muito do que falta na sociedade respeitada de hoje. ideias próprias, criatividade, simplicidade, frontalidade e o sonho... o sonho é um elemento constante nas letras da ala dos rejeitados, talvez porque eles vivem na utopia de que aquilo que tanto criticam tem os dias contados.

a noite teve como apresentador MCK, magro, alto e sem pinta de nigga... a vontade com o público, parecia que tinha um livro de indirectas, cada fala sua vinha em dois sentidos – o primeiro que todos ouviam e o segundo que surgia para aqueles que conseguissem reflectir as suas palavras! – , Kool Klever o dono da noite, imagem de pai cool, estremeceu a plateia quando fez dueto com o filho que atira mensagens impercebíveis para sua mente. conheci o Conjunto Ngonguenha no documentário É Dreda Ser Angolano [link do vídeo aqui], os ngonguenhas não têm pinta de niggas, não têm pinta de kuduristas e não têm pinta de betinhos, alias, eles não têm pinta de nada, eles são o Conjunto Ngonguenha e ponto. surgiram em batas brancas e mochila as costas a cantar mensagens que por algum acaso desconfio que muitos dos presentes dificilmente decifrou aquelas palavras.
a participação especial ficou para o final. Valete é um tuga filho de são tomenses que em terras lusas também faz parte da ala dos rejeitados apesar de já ter uma pagina editada no wikipédia, usa discursos de Fidel, Che e Chaves no intro de suas musicas... cantou que cresceu trancado num quarto com livros de Marx e Pepetela, alimentado com parágrafos de Nelson Mandela...inalado na voz de Zeca Afonso, este é o puto que se assumi um trotskista belicista e que levou o público ao delírio a ponto de invadirem o palco!

infelizmente, a sociedade ainda não percebeu os rejeitados e é por essa incompreensão e não só que essa mesma sociedade teima em assumir que aqueles que não aceitam as diferenças de pensamento são os donos da verdade.
MCK

Kool Klever

Conjunto Ngonguenha

Valete

3 comentários:

Anónimo disse...

De facto escreves bem.Mas tu entendes o que de rejeição?!
És um privilegiado, tens tudo!!

Carlos F.

alertageral disse...

Sergio Partiu.


Pedro

Claudio Silva disse...

Quem me dera ter estado em Luanda para presenciar este concerto.