domingo, abril 01, 2007

belas shopping




cartaz de um filme em exibição numa das salas do cinema





2 comentários:

Phwo disse...

Caro Salucombo,
Tomei a liberdade de "roubar" uma foto tua para o meu blog, tendo feito o devido link para aqui.
Espero que não te aborreças.
Um abraço.
(Já percebi que estás finalmente em Luanda. Encontramo-nos por aí...)

Maria Muadié disse...

Caro Salucombo,
é necessário assistir a este filme: Ó paí ó, com o espírito crítico aguçado, porque este filme, aparentemente expressão da cultura negra baiana, acaba por cristalizar estereótipos que há anos vem sendo combatido pela própria população negra e mestiça. Observe a crítica abaixo, veículada (on line) no nosso maior jornal local, o jornal A Tarde.
Um abraço,
Martha

João Carlos Sampaio*

A cineasta Monique Gardenberg, 48 anos, inventou um novo filão para o cinema ao fazer o filme Ó Paí, Ó. Algo que até pode ser batizado de axé movie, por conta de uma narrativa fluida, a reboque das rebolantes canções da trilha. A frouxa transposição da trama da peça teatral para a tela grande conclui a sua caricatura sobre tipos humanos do Pelourinho, sem deixar rastro de qual seria mesmo a história que pretendeu desenvolver.

O problema da falta de articulação da história não acontece por conta do grande número de personagens e tramas paralelas, até porque o cinema já experimentou fórmulas assim com resultados muito eficazes. A questão é a superficialidade dos tipos, que apenas ajudam a consolidar a imagem de uma Bahia folclórica, sem mergulhar nos problemas, verdades e mentiras da agressiva ocupação do Centro Histórico, que resultou na expulsão de dezenas de famílias.

A certa altura do filme, o personagem de Lázaro Ramos, um rapaz que sonha ser cantor de trio, cospe um discurso cheio de frases feitas para combater a discriminação racial.

A fala se assemelha a uma redação de estudante de primeiro grau e, pior, é solta tão fora de contexto que acaba revelando o próprio preconceito do olhar estrangeiro que permeia toda a fita. Esta visão estrábica de um recorte da Bahia, o Pelourinho, que tanto se parece com os filmes institucionais do turismo, cai literalmente no samba-reggae para tentar resolver com a música o vazio das histórias.

A narrativa é interrompida em vários momentos para a música tomar conta da cena, sem que o filme possa ser classificado como um musical, apenas um somatório de intenções que se frustram na tela. A presença de Lázaro Ramos é um dos poucos alentos. Com a habilidade de grande ator, ele consegue dar alguma verdade ao personagem, numa aventura tão diluída que nem Wagner Moura, tão eficiente noutras jornadas, consegue convencer na pele de um malandro. Salva-se, também, na pitoresca trama em esquetes, a força dos atores do Bando de Teatro Olodum, especialmente, Luciana Souza, que interpreta uma beata, dona do imóvel ocupado por outros personagens.

O grupo merecia narrativa e diálogos melhores para estrear no cinema. Outros convidados, como Stênio Garcia e, principalmente, Dira Paes, aparecem subaproveitados, embalados por um roteiro frágil. A impressão é que o filme nada mais é do que um pálido humorístico de TV, sem timming certo para o riso e tiradas sem sutileza.

Não se pode discutir a qualidade da trilha, que tem canções de Gerônimo e Batatinha, além das que foram especialmente compostas para o filme por Caetano Veloso. No entanto, o uso que se faz desse material chega a ser irritante. Basta lembrar a variedade indefinida do conceito de clipe musical que aparece em dose tríplice logo nos primeiros instantes de Ó Paí, Ó.

O filme é, em si, um todo histérico que toma a tela de forma caótica, sem dar fôlego para o espectador, que, ao final, chega moribundo a uma conclusão incapaz de encerrar qualquer uma das histórias propostas. Com um detalhe agravante, há uma tragédia, que inclui uma cena da personagem de Luciana Souza correndo em câmera lenta. Impossível não lembrar dos piores momentos da teledramaturgia.

Esse é o terceiro longa de Monique Gardenberg, que se inspira na peça teatral de Márcio Meirelles, montada pelo Bando de Teatro Olodum. O filme sucede ao irregular Jenipapo (1996), também ambientado na Bahia, e Benjamin (2003), transposição da obra homônima de Chico Buarque. Até agora, única obra da diretora baiana a merecer algum crédito.

Com Ó Paí, Ó (corruptela que significa olhe para isso, olhe), ela se propôs a mergulhar no microcosmo do Pelourinho para falar das relações internas de poder e organização social. Fez uma fracassada crônica de costumes, superficial e caricata. Somente a popularidade da axé music, presente em toda a fita, pode ajudar a seduzir platéias e dar retorno ao agressivo marketing empregado no projeto.

A expectativa gira, agora, em torno à versão televisiva, que deve ter, além de Monique Gardenberg, diretores como Guel Arraes, Olívia Guimarães, Carol Jabor, Márcia Faria e o também baiano Sérgio Machado.

* João Carlos Sampaio é jornalista e crítico de cinema.