quinta-feira, maio 07, 2009

kiokos, esquecidos na ficção e na realidade!

Dia 3

acordamos com o cantar do galo, comemos e fomos olhar a cidade. para chegarmos ao centro apanhamos o meio de transporte mais usado por aqui, o mototaxi...as primeiras horas da manhã, o Dundo parece uma cidade movimentada, as crianças em batas brancas caminham para escola e o turbilhão no edifício do governo provincial, transmitem vida a este cantinho cercado por muitas mangueiras e poucos eucaliptos.

sem qualquer problema, fotografamos o Museu, a Igreja, as casas e até os jacarés enjaulados no parque da cidade mereceram alguma atenção da nossa parte. seguimos para o Chitato e de lá para o bairro do Kamakenzo ter com alguém que nos foi recomendo. o Soba M., mais velho na idade, mais velho na vida, mais velho no olhar e mais velho na maneira de sentar na cadeira móvel colocada na varanda de frente da casa. marido de toda vida da Sr.ª A., o casal recebeu-nos com um sorriso contagiante e sem muita cerimonia, aceitamos o convite de nos sentar na esteira que estava a sombra da mangueira. depois, vieram as bebidas, a cabuenha (só sei que é peixe), a conversa e com ela as historias... muitas e muitas historias, por momentos invejei a capacidade daquele casal em como contornou o sofrimento não deixando com que ele alterasse a naturalidade dos seus sorrisos! contou-nos a Sr.ª que no passado vivia-se melhor aqui na terra das pedras valiosas; hoje meus filhos, é difícil ter desejos, se os camiões trazem peixe não se pode pensar em carne porque no mercado só aparece peixe... se as crianças pedem leite, só aparece chá, e tudo isso por causa da estrada. estamos esquecidos! naquilo, recebo um sms de Luanda perguntando como estava, respondo que estava com lágrimas nos olhos.

sem nos apercebemos do tempo, a noite encontrou-nos por baixo da mangueira, e quando as pessoas das casas ao lado se retiravam para dentro o mais velho M. convidou-nos a esperarmos pela surpresa. esperamos, esperamos e esperamos, e como ninguém tinha coragem de questionar o mais velho sobre a surpresa, voltamos a esperar. por volta das 10 da noite, apontou o dedo e disse-nos; escutem e olhem.

eram os pirilampos!

2 comentários:

Denudado disse...

Caro Salucombo,

Estou a gostar muito desta descrição da sua última viagem à terra onde estão as suas raízes. Ela dá-nos a sentir, a nós também, um pouco das emoções, sentimentos e afectos que sentiu nessa sua viagem.

A respeito de pirilampos, não posso deixar de recordar uma noite verdadeiramente mágica que esses bichinhos me fizeram viver em terras angolanas. Essa noite foi das coisas mais maravilhosas que alguma vez me aconteceram.

Era uma noite extremamente escura, sem luar, em que o céu se mostrava repleto de estrelas. A partir de certa altura, e a pouco e pouco, muitas outras estrelas se foram acendendo à minha volta: no chão, no ar e para onde quer que eu me voltasse. Acabei por me ver rodeado de muitas centenas e centenas de pirilampos, que brilhavam na escuridão, reproduzindo, cá na terra, as estrelas que cobriam o céu. Foi uma cena inesquecível. Durante cerca de uma hora, tive a sensação de me encontrar suspenso num ponto longínquo do Universo, a muitos anos-luz de distância do Sistema Solar, apenas rodeado de estrelas por todos os lados. Pareceu-me que estava mergulhado num sonho lindo de morrer. Nunca mais esquecerei essa noite de encantamento que os pirilampos mágicos de Angola me fizeram viver.

Um abraço


P.S. - Salucombo, acaso sabe que nome se dá em tchokwe ao pirilampo? Eu não sei. Só sei que, em kimbundu, o pirilampo se chama kalumba-tubia, o que traduzido à letra significa "menina-fogo". É um nome muito poético! Em tchokwe será um nome equivalente ou nem por isso?

Salucombo_Jr. disse...

é cota, algumas vezes as raízes parecem adormecidas... mas do nada, lá surgem e fazem-nos lembrar de onde viemos.

o embondeiro, depois de cortado, diz-se que temos de queimar as raízes porque só assim ele morre...mas há aqui na terra muitos exemplos de casas que as fissuras surgidas no chão são justificadas com as raízes adormecidas do embondeiro que ali existe/existiu.

em tchocwe diz-se txiyhynhy por causa do brilho (kuhenha) que os pirilampos trazem a noite.

abraço