quinta-feira, julho 01, 2010

ainda o mundial, África e os africanos 4

[um jornalista (Tiago Carrasco), um fotógrafo (João Henriques) e um repórter de imagem (João Fontes) aventuraram-se durante 5 meses numa viagem de 30 mil quilómetros, passando por 19 países, da capital portuguesa até a principal cidade da Copa do Mundo, Joanesburgo. Publicada na Revista Única, compartilho aqui à aventura num copy/paste sem censura.]


Burkina Faso
O pesadelo começou com uma omeleta na fronteira perdida entre o Mali e o Burkina Faso. O ovo revolveu o estômago do João Fontes, que passou os três dias seguintes enfiado na casa de banho. Para complicar, o João Henriques começou a sentir febre. Em Bobo-Dioulasso, diagnosticaram-lhe malária. Precipitadamente, ingeriu um medicamento duvidoso fabricado no Mali. Este era o ponto da situação quando eu e o João Fontes, num estado moribundo, partimos para Diosso, uma mina de ouro artesanal nas colinas, a 80 quilómetros da cidade, e o Henriques ficou a recuperar no quarto. O que se passou nos dias seguintes foi quase um ponto final no projecto. O comprimido causou uma reacção no fotógrafo, que começou a vomitar sangue. Alarmado, tentou contactar-nos, mas estávamos desterrados numa povoação de mineiros criminosos que arriscam a vida para achar uma pepita. Quando lhe telefonei, já estava a caminho do avião para Lisboa. Na manhã seguinte, o Fontes não conseguia andar três metros sem sentir tonturas e estatelar-se no chão. Possuído pela ansiedade, foi levado a grande velocidade para uma clínica de Babo. Aí, uma balança apontar-lhe-ia a causa do seu mal – em dois meses tinha perdido 12 quilos. Voltei a Diosso para finalizar sozinho a reportagem e, depois de ver os mineiros entrarem num buraco mínimo e escuro, metalizei-me que não tinha razões para recar pela minha situação. Já já Henriques haveria de se encontrar connosco uma semana depois na Costa do Marfim.

Costa do Marfim
Entrámos pelo norte da Costa do Marfim sem seguro, sem documentos da viatura e sem mostrar o visto. A razão para tanta ilegalidade é simples – o país está dividido e a região norte é controlado pelos rebeldes das Forces Nouvelles (FN). Para todos os efeitos, é outro país. Muitos nos advertiram que seria perigoso entrar pela fronteira setentrional e chegamos a pensar que tinham razão quando um dos rebeldes nos entrou para o banco de trás. Guy Dénis Koné, 30 anos, queria boleia até Bouaké, a capital do norte e bastião das forças opositoras ao Governo de Abidjan. “Entrei para as FN porque me chamo Koné, que é um nome do norte. Se eu for para Abidjan e disser o meu nome, ninguém me dá trabalho”, disse o militar. A Costa do Marfim separou-se porque os sulistas, maioritariamente católicos, negaram o direito à nacionalidade aos nortenhos, muçulmanos, muitos deles descendentes dos imigrantes burkinabés que trabalhavam nas plantações de cacau e café. A guerra civil rebentou em 2002 e prolongou-se por cinco anos mas, ainda hoje, a situação é tensa. Levar Koné no carro revelou-se bastante útil. Nas onze barreiras policiais a que fomos sujeitos, o guerrilheiro recomendava a gorjeta a dispensar, bastante inferior ao que teríamos de gastar se viajássemos sozinhos. Mesmo assim, nos dias seguintes, o nosso novo amigo não impediu dois valentes sustos: que um oficial rebelde nos apreendesse a câmara por eu estar a fotografar um edifício bombardeado e que um homem largo como um prédio nos perseguisse com uma mão atrás das costas, simulando a posso de uma arma. Nos dois casos, tudo se resolveu com diplomacia. Uns dias mais tarde, já em Abidjan, no sul, um polícia pediu-me os documentos de entrada no país. Mostrei-lhe o recibo carimbado pelas Forces Nouvelles: “O que é isto? Pedi-lhe documentos da Costa do Marfim!”, respondeu, furioso.

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