terça-feira, fevereiro 18, 2014

PERSPEKTIVE

Keine andere afrikanische Großstadt tanzt zu einer dermaßen originellen urbanen Clubmusik wie Luanda, die Hauptstadt von Angola in Südwestafrika. Kuduro, vor ein paar Jahren auch hierzulande kurz in den Medien, ist überall in der Millionen­metropole – und doch muss man sich lange durch die endlosen Staus der Stadt kämpfen, um ihn zu finden. Eine nächtliche Suche.
text: Florian Sievers
fotos: Ngoi Salucombo
 

isso é BURAKA!

já não me lembro ao certo se foi em estocolmo ou copenhaga, a primeira vez que fiquei impressionado com o fenómeno Buraka. apesar que já conhecia a banda, foi impressionante para mim ouvir aquela menina que não sabia falar português e nem sequer entendia uma única palavra com excepção do obrigada, a descrever a sensação corporal e mental do que era assistir um show dos Buraka Som Sistema

nunca me esqueci do momento, principalmente porque era o único angolano naquele grupo de nórdicos e na altura ainda vivia em portugal, mas aquela ruiva de olhos super claros arrepiou-me porque ao ouvir a sua descrição, por momentos achei que ela conhecia a zona da amadora, mas não, ela nem sequer conhecia portugal! 

e é isso também que a música faz. 

na semana passada, à convite da red bull, estiveram em luanda os Buraka Som Sistema para uma conversa informal na plataforma red bull music academy, apresentação do documentário Off The Beaten Track e um show intenso cujo o momento me fez lembrar aquela menina ruiva de olhos super claros.
 

terça-feira, fevereiro 11, 2014

um convite aos de cá

até já Paulo...

foram as palavras que nos aproximaram, foram as palavras que nos tornaram amigos, foram ainda as palavras que distantemente alimentaram a nossa amizade, foram também com palavras que não nos despedimos... essa despedida, que com palavras me pediu no último email novidades de San Sebastian. 
as novidades, ei de enviar, não te preocupes amigo, com certeza que ei de enviar-te juntamente com um abraço com sabor do António Lobo Antunes: 

Tudo cinzento na janela, árvores, casas, tudo triste. Nem uma pessoa na rua, nem um bicho. Frio. E eu sentado nesta mesa, à espera de uma crónica que não aparece. Vou enchendo as páginas de palavras na esperança de que alguma salte como um peixe. Não salta. Ficam no fundo do papel, escondidas, nem a sombra lhes vejo. Se calhar acabaram-se, as palavras. Penso no Pedro. Desde que morreu, no dia vinte um de dezembro, nem há um mês ainda, é quase só o que faço, pensar nele. não estou a escrever, estou a acabar de corrigir um livro, que é um trabalho diferente, posso fazer com o Pedro à beirinha. Aliás ele sempre foi colado, sou eu que pago a conversa. Estamos aqui, estamos em Torres Novas, estamos noutros sítios por onde andámos juntos e, como quase sempre, o nosso dialogo é feito de silêncios, com uma frase ocasional de vez em quando. Custa-me redigir isto, mas lá vou coxeando. Tudo cinzento na janela. Há anos, estávamos sozinhos os dois, à noite, na rua, o Pedro caiu em coma à minha frente. Era um derrame na cabeça, o João operou-o e salvou-se. Desta vez morreu na voz do João, que recebeu a notícia pelo telefone e, de repente, o dia principiou a coxear. Até hoje, nem um deixou de coxear. Eu não percebo a morte. Provavelmente também não percebo a vida. Existira alguma coisa para perceber? E, no que se refere a isto ter acontecido ao meu irmão, então aí não percebo nada. Árvores, casas, tudo triste, já se inventou coisa pior do que janeiro? Nem uma pessoa na rua, nem um bicho. Frio. Se uma pontinha de sol, ao menos. Hoje jantar em casa dos meus pais sem o Pedro, não faz sentido jantar em casa dos meus pais sem o Pedro. O lugar dele é à direita da mão. Quem o ocupará? Eu sento-me na cadeira do meu pai e o mundo é muito diferente visto dali. Normalmente pouco digo, pouco oiço. Hoje penso que vou ouvir-te o tempo todo, mais o que existe nos intervalos das frases, ou seja, o principal. E o principal, o único, é a tua ausência. O que me é insuportável é que a tua ausência vai continuar a existir. Para sempre. E é muito difícil pensar que não estarei mais contigo. 

A gente, claro, conhece-se desde que tu nasceste. Temos o mesmo sangue. Quando te trouxeram para casa, numa alcofa, eu era uma criança de três anos e estava doente dos pulmões. Tuberculose. Lembro-me de te mostrarem a mim e eu ficar a arder de ciúmes, porque me davam menos atenção. Recordo-me tão bem disso. A arder de ciúmes, furioso. Recordo-me e espanto-me porque não sou ciumento. Também não sou invejoso. Algumas qualidades havia de ter, caramba. Nem são qualidades sequer, quando muito ausência de defeitos. Pedro. Moreno. De cabelo escuro, ao contrario dos teus irmãos loiros e de olhos azuis, os já nascidos e os que viriam a nascer. E depois, a pouco e pouco
(tudo cinzento na janela, árvores, casas, tudo triste)uma grande ligação entre nós foi crescendo. Possuo cartas tuas da guerra, cheias de amor contido. Foste primeiro do que eu, voltaste antes da minha partida. Depois conheci uma rapariga e levei-te para ta apresentar. Achei que te calhava bem. Calhou. A gaita é a vida inteira durar tão pouco tempo. 

Começa a anoitecer agora. Nem uma janela acesa no outro lado da rua. Eu aqui a fazer isto. Trago tanto para te contar que não consigo contar nada, tanto para contar de ti que não consigo contar nada. Aqui entre nós para quê? Tu sabes tudo o que eu poderia escrever e, o resto, a quem interessa? E depois existem coisas só nossas, íntimas, secretas, sem interesse para os outros, creio. E o que já não podemos partilhar porque morreste para sempre, porque vou morrer para sempre. Ficam aqueles que prolongarão o nosso sangue, cada vez mais diluído no sangue dos outros. Até o nosso sangue, que era um só, desaparecerá. E, depois, nada. 

Tanto frio, Pedro, hoje. Já não distingo as árvores, distingo, na rua, um candeeiro desfocado. Só um. Ambos moramos em sítios feios e tristes, nesta cidade hoje feia e triste. É quinta-feira. Dia de jantar nos pais. Não te vou encontrar e, todavia, sei que passarei o tempo à tua espera. 

- Porque carga de água o Pedro não veio hoje, ele que vinha sempre? 

E não vou entender. E ficarei incapaz de entender. E ir-me embora sem entender. Nem sequer que morreste entenderei. Até ao fim dos meus dias não entenderei nunca. Diz-me lá uma coisa: achas que isto faz algum sentido? Achas que isto é justo? O que era cinzento na janela negro agora. Não faz sentido nem é justo. E não me acenarás do teu carro à medida que te afastas, não fazes a curva nem te afastas de mim. Não és. Não voltarás a ser. E, pior do que tudo, realmente o pior do tudo, acabará a tua mão no meu ombro, acabou a tua mão no meu ombro. Ou, fui eu, mano, que deixei de ter ombro.

terça-feira, janeiro 28, 2014

para compartilhar

https://www.facebook.com/redeangola.info

a primeira edição

Com os pés literalmente descalços, num ambiente casual e relaxado vamos conversar. Conversar com pessoas da área criativa sobre os seus mecanismos de trabalho, processos criativos, projectos, etc. 

O objectivo destas conversas é desenvolver uma larga rede de contactos e conhecimentos partilhados, ao mesmo tempo que se disponibiliza a um público mais alargado, conhecimento sobre a área e sobre pessoas que nela trabalham. 

Nesta primeira edição teremos como convidado o artista angolano ''VAN'' que recentemente apresentou o seu trabalho no Centro Cultural Português em Luanda numa exposição intitulada “Desenhos, Pau-a-Pique e outros Registos”. VAN que é docente universitário e Mestre em educação artística, promotor cultural e artista plástico, possui um vasto curriculum académico e profissional e nesta tarde de domingo vai falar-nos um pouco sobre todas estas facetas. 

Esperamos por vocês com os pés descalços. 
Local: UpGradeArtRoom @ Upgrade Classic Menswear | 18-20 Rua dos Mercadores (Junto ao Restaurante Flôr da Sé) Coqueiros, 2610 Luanda, Angola
https://www.facebook.com/PesDescalcosCC
 

sexta-feira, janeiro 24, 2014

descobertas

e é assim Luanda, num dia cruzas-te com alguém que pode ser mais um entre as muitas pessoas com quem me cruzo nessa nossa cidade e num outro dia, esta mesma pessoa pode estar completamente transtornada! e é isso que também me fascina nessa cidade. 

conheci a Sara aqui, ou seja, no festival de gastronomia, e foi ela quem credenciou a imprensa, sem nunca ter reparado na sua expressão, com exceção talvez do tímido sorriso, nunca voltamos a cruzar.

do outro dia fui ver o projecto Ubumthu Sounds do Pj Mussungo, alguém que muito aprecio como já escrevi aqui, com o Jack Nkanga como convidado numa noite agradável e revoltante ao mesmo tempo. infelizmente, continuamos a desprezar brilhantes iniciativas, talvez por sermos um povo com uma mente pouco curiosa. a novidade e o diferente raramente nos atrai, infelizmente! talvez seja essa a explicação para uma noite tão agradável como aquela, o Chá de Caxinde tenha estado vazio, enfim, continuo sem perceber o que realmente se passa connosco! 

quando o Pj Mussungo chamou a Sara ao palco, sorri, observei-lhe através da objectiva da maquina e voltei a sorrir. primeiro porque fiquei logo curioso de ouvir a voz dela agora a cantar... e depois porque gostei dos detalhes da indumentária que ela trazia vestida. fotografei sem me cansar, escutei a sua voz e no final, mesmo no final, lembrei-me de como Luanda é agradavelmente pequena.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

um convite aos de cá

realiza-se amanhã um evento que é para mim a resposta de um pedido que a muito venho fazendo!

a promoção da Lunda Norte sem que os diamantes sejam a personagem de destaque. no ano passado quando fui a feira de municípios e cidades de angola, lembro-me muito bem do sms que mandei ao meu irmão mais velho assim que entrei para o espaço que representava o lugar de onde vem o nosso passado. 

cota, pela primeira vez estou num espaço onde se fala dos kiokos sem que os diamantes sejam destaque! até o cheiro lembra-me a nossa infância. 

o outro sms, foi para dar os parabéns a um dos responsáveis por esse trabalho. 

é verdade, nos meus mais de 28 e menos de 34 anos não me lembro de alguém transmitir assim a cultura do leste, e isso para alguém que cresceu numa casa onde se comia funge, makosso e makenene com as mãos, onde vezes sem conta presenciei a revolta do meu pai sempre que na televisão se apresentava a Luanda Norte como a província dos diamantes. 

amanhã, no Belas Shopping. 
e sim, é permitido levar crianças.
 

um convite aos de cá

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quarta-feira, janeiro 01, 2014

o frio

o frio aproxima uma pessoa de si própria. saímos à rua e, dentro do casaco, para nos protegermos do frio ofensivo exterior, apertamo-nos como se, afinal, muito dentro do casaco não estivesse um, mas dois. não um sujeito, mas dois sujeitos. e por isso mesmo sair à rua no inverno é finalmente dar um passo em direcção a uma outra parte do nosso corpo. 

um homem que na rua aperta o casaco e assim se aperta a si próprio faz, em caminhada livre e a céu aberto, uma rápida autossessão de analise psicológica e psicanalítica e física e etc. e tudo. frio e sol, então – combinação sensatamente perfeita. protege-te e comemora, eis o que nos diz o sol e o frio, cada um a seu tempo. 

no calor, o nosso corpo afasta-se de nós, afasta-se do centro. está para ali à minha a frente ou ao meu lado. no frio, pelo contrário, o corpo torna-se aquilo que quero proteger e aquilo que me protege. por isso é que nos apertamos muito no inverno, no exterior. temos de fazer duas acções opostas ao mesmo tempo. proteger e ser protegido. no inverno, o corpo ocupa menos espaço. de facto, é impossível exigir reflexão a um povo que viva debaixo do sol e do calor permanentes. acima de trinta graus de temperatura, filosofar é perder a vida e o exterior. abaixo de oito graus, não pensar é não ter cabeça. 

é assim mesmo, como se fosse uma formula meio química meio existencial: o homem só pensa em determinados assuntos e com certa profundidade quando avança pela cidade com temperaturas abaixo de oito, sete, seis graus. 

cada cidadão, enrolado no seu casaco, caminha com o rosto de quem reflecte longamente sobre o essencial. em Lisboa, em dezembro, pensa-se mais, isso é evidente.

Gonçalo M. Tavares